O Cortiço na perspectiva econômica

 

No início do século XX, em 1929, os EUA sofreram um forte abalo em sua economia devido ao excesso de produção em relação ao encolhimento da demanda, o que ficou conhecido como o crash da Bolsa de Valores, em New York.  A crise se estendeu até o ano de 1933, repercutindo na Europa, América Latina e Ásia. As consequências, entre outras, são a falência de empresas, o desemprego, queda brusca de preços. O mais curioso é o fato de que uma crise tão expressiva e remodeladora de paradigmas para a economia teve como detonador a decadência e o fim do capitalismo de intervenção, ou seja, o fim do liberalismo econômico, no qual o Estado pouco se manifestava. A superprodução e a especulação econômica foram os protagonistas desta crise. Naturalmente, o Brasil, já suspirando forte com a Proclamação da República, não deixou de sofrer seus reflexos.

Ao entendermos que a economia não é algo estático fica menos impactante e mais lógica a análise do período que compreende as últimas três décadas do século XIX no Brasil, quando foi erigido o que os especialistas denominam de capitalismo moderno. Mas vamos buscar uma compreensão dos fatos que consolidaram tal fenômeno à luz de um clássico da literatura brasileira, O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Romance naturalista, publicado em 1890, que aborda o surgimento de um cortiço na periferia da onde vão se instalar os imigrantes pobres, os mestiços, a gente pobre e desvalida que trabalha e mora em condições muito precárias. No entanto, encontra-se na trama uma personagem singular, João Romão, que à custa de muito trabalho e conduta exploratória e vil, acaba saindo da condição quase mísera em que chegara ao Brasil, para ascender aos patamares burgueses. A trajetória dele é espetacular, ao se considerar a permeabilidade social permitida aos que como ele se dispõem a tal propósito, frisando que se trata de um europeu, branco e livre. Antônio Cândido, no ensaio “De cortiço a Cortiço”, coloca-nos, de forma clara e contundente que “Daí a pertinência com que Aluísio escolheu para objeto a acumulação do capital a partir das suas fases mais modestas e primárias, situando-a em relação estreita com a natureza física, já obliterada no mundo europeu do trabalho urbano. No seu romance o enriquecimento é feito à custa da exploração brutal do trabalho servil, da renda imobiliária arrancada do pobre, da usura e até do roubo puro e simples, constituindo o que se poderia qualificar de primitivismo econômico” .

Os fatos em si não são nada exemplares, mas na dinâmica da construção de um modelo econômico, encaixa-se perfeitamente na passagem de uma economia que vivia às custas de um regime de escravidão, tendo como polo a vida agrária, mas que agora insurge-se no ambiente urbano, revelando novas forças de produção e agentes desse processo, como é desenhado o personagem em questão, denominado pelo narrador como alguém que tem “delírio de enriquecer”.

Fica o convite para uma leitura e análise de uma instigante obra em que a literatura, a história e a economia dialogam com tanta eficiência! Assistam nossas Conversas Criativas a respeito desta obra no nosso canal de Youtube. São três episódios. Depois, deixem seus comentários, queremos muito continuar a conversa com vocês!

Cleide Simões