A ECONOMIA BRASILEIRA NO FINAL DO SÉCULO XIX

Por Cândido Luiz de Lima Fernandes

Nas últimas três décadas do século XIX a economia brasileira sofreu acelerada transformação. A atividade cafeeira vinha ganhando lugar de destaque desde, pelo menos, 1840. O setor exportador tornou-se o pólo dinâmico da economia, constituindo-se no principal elo do País com o mercado mundial. Embora houvesse outras atividades ligadas à exportação, como a borracha e a cana-de-açúcar, a supremacia do café era incontestável.

Foto: A obra “Café” (1935), de Cândido Portinari

 

Com o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), a agricultura de exportação viveu, a partir de 1870, uma acentuada prosperidade. Registra-se, a partir de então, um expressivo fluxo de capitais, notadamente inglês, direcionado para as áreas de infraestrutura de transportes – ferrovias, companhias de bonde e construção de estradas – e atividades ligadas à exportação, como bancos, armazéns e beneficiamento, todos garantidos pelo Estado.

Foto: Estrada de ferro em Petrópolis (1885)

 

A partir de 1888, com a abolição da escravatura, ocorreram importantes transformações na economia e na sociedade brasileira. No que diz respeito aos ex-escravos, estes, geralmente analfabetos, vítimas de todo tipo de preconceito, sem acesso a terra e sem qualquer tipo de indenização por tanto tempo de trabalhos forçados, permaneceram em grande número nas fazendas em que trabalhavam, vendendo seu trabalho em troca da sobrevivência. Aos negros que migraram para as cidades, só restaram o subemprego, a economia informal e o artesanato. Com isso, aumentou de modo significativo o número de ambulantes, empregadas domésticas, quitandeiras, sem qualquer tipo de assistência e garantia. Os negros que não moravam nas ruas passaram a morar, quando muito, em míseros cortiços. Por outro lado, com a abolição da escravatura, ocorreu o aumento da importância relativa do trabalho assalariado. A renda gerada pela economia cafeeira permitia remunerar os proprietários, os assalariados e o governo. A expansão da atividade cafeeira acarretou o grande incremento da massa de salários pagos no setor exportador, que veio a se constituir no núcleo de uma economia de mercado interno que estava sendo gestada no Brasil. A renda dos empresários era, por sua vez, utilizada em investimentos na expansão da cafeicultura e no consumo, especialmente de produtos importados.

A proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, trouxe grande autonomia para os governos estaduais. Aos novos governos estaduais coube um papel fundamental no campo da política econômico-financeira nos primeiros vinte anos da vida republicana. O governo provisório, ao conceder o poder de emissão a inúmeros bancos regionais, promoveu uma grande expansão do crédito em todo o país, gerando uma febril atividade econômica como jamais se conhecera no Brasil. Entretanto, a expansão do trabalho assalariado trouxe como consequência negativa o agravamento das crises de liquidez no sistema bancário nacional, especialmente na década de 1890. Entre o final da Monarquia e início da República ocorreu uma bolha de crédito, conhecida como Crise do Encilhamento, que estourou durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1892), desencadeando, assim, uma crise financeira. Os então Ministros da Fazenda Visconde de Ouro Preto e Rui Barbosa, sob a justificativa de estimular a industrialização no País, adotaram uma política baseada em créditos livres aos investimentos industriais, garantidos por farta emissão monetária. Ocorreu, portanto, uma grave crise econômica que prejudicou bastante o país. A inflação atingiu níveis insuportáveis, a moeda brasileira se desvalorizava a cada dia, enquanto nosso principal produto de exportação, o café, atravessava uma fase de superprodução interna e baixos preços.

A grande depreciação cambial do último decênio do século, provocada pelo governo provisório devido à expansão descontrolada do crédito, criou forte pressão sobre os assalariados, especialmente nas zonas urbanas, gerando intranqüilidade social, caracterizada por inúmeros levantes militares. Nessa época, o governo central passou a enfrentar pressões de outros grupos sociais, além daquele ligado ao setor agro-exportador. Trata-se da classe média urbana, representada por empregados do governo, civis e militares, e do comércio, os assalariados urbanos e rurais, os produtores agrícolas ligados ao mercado interno, as empresas estrangeiras que exploram serviços públicos e os nascentes grupos industriais. Teve início, assim, um período de tensões entre os dois níveis de governo — estadual e federal — que se prolongou pelos primeiros decênios do século XX.

 

 

 

O Professor Cândido Luiz de Lima Fernandes, o Candinho, doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, conversou com Cinco Letras sobre os desdobramentos que houve na economia brasileira a partir da Abolição da Escravatura, no século XIX, tendo como base a obra O Cortiço, de Aluisio Azevedo. Literatura, História e Economia se entrelaçam na fala dele, com clareza e refinamento. Uma aula interdisciplinar que vai enriquecer a compreensão dos interessados na evolução do complexo painel social brasileiro.

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Ja assistiram os outros episódios de O Cortiço? Não percam!

 

EP#1 Joao Romao: Uma trajetoria capitalista

 

EP#2 Bertoleza

 

EP#3 O Espaço do Cortiço

 

Na Primeira Temporada, selecionamos a obra O Cortiço ( 1890), de Aluísio Azevedo. Personagens e Dramas Naturalistas! Uma obra de várias interfaces, mas optamos pelo recorte econômico, uma vez que ela dramatiza a passagem do capitalismo em seus aspectos mais primários, mas que vão redundar no surgimento do sistema econômico que prepondera até os dias de hoje!

O olhar de Azevedo é cirúrgico, naturalista, histórico e singularmente ficcional! Sobre a obra O Cortiço: O Cortiço, Aluísio Azevedo (1890) é um clássico da literatura brasileira. Embora, até certo ponto, tenha sido matéria de estranhamento para a crítica e leitores da época, ainda um pouco saudosos dos dramas românticos, uma vez que nos trouxe matéria sociológica e cientificista, resultante de um escrutínio rigoroso sobre o ambiente/moradias de uma população ainda alijada das benesses do capital, melhor, do acúmulo do capital, uma vez que a circulação do mesmo estava restrita nas mãos de uns poucos. Escravos foragidos, ex-escravos, população mestiça, imigrantes pobres, todos compartilham de uma rotina de trabalho e de vadiagem, de prazer e pudor, da violência e da passividade, ou seja, dos limites ou das fronteiras sempre tênues das experiências do corpo e das relações sociais pouco afeitas aos mecanismos de controle social, só advindos algumas décadas depois, no período republicano. O Cortiço é uma obra que pode ser lida como uma alegoria do Brasil no final do Império e, no plano econômico, início do capitalismo moderno.