A raiva da baleia

Entre tantas epidemias, pandemias, surtos, e outros matizes do ataque dos microorganismos , vamos destacar um menos midiático, o RNA-vírus da família Rhabidoviridae (RABV)gênero Lyssavirus.  Trata-se do transmissor da raiva, uma doença viral aguda, progressiva e mortal. Conhecida desde a Antiguidade, antes de a vacina ser descoberta por Louis Pasteur, no final do século 19, sentenciava à morte em praticamente 100% dos casos.

http://www.medicinanet.com.br/conteudos/conteudo/2185/raiva.htm
Acesso 28 de maio 2018.

Lyssavirus  ataca as células do sistema nervoso. Após a inoculação através de uma lesão na pele, ele se multiplica, invade os nervos periféricos e, movendo-se lentamente, propagando-se pelos neurotransmissores, quando alcança o cérebro (fase centrípeta) e provoca um quadro grave de encefalite. Após essa primeira fase, ele migra para vários órgãos do corpo (fase centrífuga), mas é nas glândulas salivares que torna a multiplicar-se e é excretado pela saliva do animal doente.

No contexto popular, principalmente quando atinge os mamíferos, é conhecida como hidrofobia, ou seja, aversão à água. Isso é explicado por um sintoma clássico da doença, uma vez que acometido pela mesma, homem ou animal desenvolvem intolerância ao líquido, já no período avançado da contaminação, o que agrava o mal.

https://petfarmaciaunifal.wordpress.com/2017/07/05/apos-19-anos-primeira-morte-por-raiva-humana-e-confirmada-no-brasil
Acesso 28 de maio 2018

A contaminação se dá pela penetração do vírus em ferimentos abertos ou nas mucosas. Se local de contaminação for na cabeça ou membros superiores, os sintomas aparecerão com mais rapidez. A partir do momento que o microorganismo ataca o cérebro, alguns sintomas aparecem, podendo ser até mais simples, como mal-estar, febre branda, dor de cabeça e desconfortos gastrointestinais. Esse processo vem acompanhado, em poucos dias, de irritabilidade até a hiperexcitabilidade, confusão mental e crises convulsivas potencializadas pelos estímulos táteis, auditivos e visuais, pois a inflamação do encéfalo já está em curso.

Sofrível ao extremo, esta é uma constatação inequívoca. A profilaxia, naturalmente, deve-se à vacinação. Pessoas que estão em situação de risco, como o fato de ter bastante contato com animais mamíferos, devem proceder com a prevenção. Além deles, outros que se expõem ao risco são os indivíduos que por pesquisa ou esporte entram em cavernas, local de concentração de morcegos hematófagos, vetores da mesma. Mas infectado, o ser humano deve recorrer a aplicação da vacina antirrábica e de imunoglobina antirrábica humana (produzida a partir do plasma de doadores previamente imunizados) ou do soro antirrábico (composto por imunoglobulinas específicas obtidas do plasma de equinos vacinados contra a raiva). O esquema terapêutico varia de acordo com a localização e a gravidade da ferida. O fato é que poucos infectados conseguem sobreviver ao mal.

Esse processo pode ser verificado no capítulo IX da magistral obra de Graciliano Ramos, indicada para o vestibular da FUVEST. Vejamos uma passagem que nos sensibiliza para essa problemática, atestada pelo próprio autor, numa carta à esposa, em 7 de maio de 1937:

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. (…). No fundo somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. (…). “

Depois de constatar que a cachorra estava doente, Fabiano, junto com sinhá Vitória, decidiu que o mais seguro para a família era o sacrifício do animal. Embora todos sofressem agudamente com a decisão, o fato é que não havia outro caminho. Risco para todos e o sofrimento de Baleia era argumentos incontestáveis. Mas a cena é magistral. Toda a humanização do animal é vigorosamente realçada por uma escrita de frases curtas, imagens cirurgicamente encadeadas, nas quais assoam todo o drama no seu viés biológico, estético e subjetivo.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. (…).

A relação do homem com os animais, os dramas que ambos vivem numa paisagem seca, quente, que colabora, inclusive, para a proliferação de vetores e microorganismos que infectam o corpo, os sonhos, a vida humana, esse é um originalíssimo que a moderna e excelente obra do escritor alagoano no traz.

CLEIDE SIMÕES
Imagem: Vidas Secas – Wikipédia

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