A boa saúde na literatura

Uma das condições para que uma obra se torne clássica é a sua sobrevivência aos modismos e o seu alcance intelectual que vai além do gosto, sempre relativista, para uma esfera mais construtiva de valores e sensibilização do intelecto e do espírito. De caráter filosófico, espiritual, histórico, ou de outra natureza que edifique o conhecimento do homem sobre si e sobre o mundo, ela sempre encontrará leitores, mesmo que passe por períodos de repouso em prateleiras.

O fato é que algum motivo se apresenta para que ela seja novamente folheada, matéria de discussão, de ilustração de fenômenos e confirmação de suspeitas e saberes. Esse é o caso de Decameron, de Giovanni Bocaccio, século XIV. A questão agora é descobrirmos o porquê, o que obras de períodos tão longíguos e autores, a princípio tão pouco afins com a contemporaneidade, mas que ainda são suportes para reflexões sobre os problemas do presente.

É sabido que a Peste Negra ou Bubônica, no século XIV, vitimou em torno de 50 milhões de indivíduos. A ignorância sobre os riscos de surgimento, proliferação e letalidade de doenças como essa, oriundas da falta de higiene com o ambiente e consigo mesmo, fez com que populações sofressem agudamente por um período de dois anos, em vários locais da Europa. Logo no primeiro capítulo de Decameron, o autor relata, num texto preciso, claro e bastante impactante, sobre as possíveis razões do surgimento desse mal.

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da encarnação do Filho de Deus, de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores, ou em razão de nossas iniquidades, a peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos.”

Além de preciosos informes sobre a vil entrada da peste em um dos centros mais cultos de toda Europa, alguns detalhes não podem passar incólumes ao leitor do século XXI. A origem e a causa: o oriente e a cólera divina. Estamos no medievo, e não é incomum atribuir-se o sofrimento como uma resposta de Deus aos destemperos humanos, embora saibamos que falta maior foi a ignorância sobre a origem e as formas de contágio de tão terrível mal, o que, naturalmente, o mais religioso dos homens hoje não imputaria a responsabilidade ao divino.

Outrossim, as consequências de âmbito cultural, uma vez que os de natureza física são evidentes. Para tanto, chamemos novamente o autor:

“Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a reverenda autoridade das leis quer divinas, quer humanas, desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto os outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdidos os seus familiares, e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação, permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.”

Recentemente, Bill Gates, fundador da Microsoft, alertou para o fato de corrermos o risco, hoje, de que um vírus tão letal como o Influenza, que matou em torno de 50 milhões de pessoas, em 1918, logo após a Segunda grande Guerra, surgir e, pela falta de preparo das sociedades, em geral, nova tragédia se consumar. Essa colocação foi feita em um debate promovido pela Massachusetts Medical Society e pelo New England Journal of Medicine, no mês de abril de 2018.

Em suma, por ignorância, por displicência, por falta de investimentos das instituições públicas, o fato é que a saúde humana ainda é frágil, suscetível aos miasmas, às águas contaminadas, aos insetos transmissores de patógenos, aos alimentos contaminados, entre outros fatores.

Esclarecimentos por parte da saúde pública, vacinação, saneamento básico, água potável, investimento público em pesquisas para criação de vacinas e medicamentos eficazes, formação de pessoal na área médica para lidar com epidemias e muita fé em Deus, nunca foram tão necessários.

CLEIDE SIMÕES
Imagem: O Triunfo da Morte, de Pieter Brueghel – Wikipédia

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